Dia bom

Olho-te, enquanto dormes. Hesito em te tocar e apenas te devolvo o leve sorriso em finos traços de sonhos que me ofereces, ainda que tu não me devolvas o meu braço que - soterrado em doces embalos - jaz, debaixo de ti, sem reacção ou formigueiro de vida. Com a mão que me resta, coço de baixo para cima, a barba por fazer que - incrustada na face e em tons levemente alvi-negros - me vai lembrando que o tempo, afinal, passa - inexorável - ainda que a gillette não passe por estas bandas há algum tempo.
Lá fora, o Eléctrico anuncia a sua chegada, qual expedição de salvamento que me resgata o braço, no preciso instante em que te mexes e a cortina dançante me vê a soprar um beijo na tua direcção.
O sol vai subindo a parede e a mim...a mim só me apetece descer a tua calçada de pedra nua, passo a passo, sem pressas...mas ainda não. Inclino o olhar para a frente, abro um pouco mais o sorriso para a brisa matinal que a janela expele e sinto que despertas, linda, como a manhã. Fecho os olhos sem sono, mas com vontade. É a tua vez de descobrir o dia que lá fora floresce, o eléctrico que passa, o contraste da minha pele nos lençóis da tua cama, o meu corpo junto ao teu, a felicidade de pequenos momentos como este.
Sinto o sopro de uma frase fresca, nas latitudes do meu ouvido e enquanto abro lentamente os olhos penso como, por vezes, uma expressão pode dizer tanto. É bom viver, por dias destes.
Foto: Carris