A luz da rua

Mirava aquele dorso despido que - antes agitado pelo rebuliço da paixão - serenava agora. Deitada de lado, de costas para si, ouvia-lhe a respiração pesada de quem dorme profundamente e sonha despreocupada. Hesitou em tapá-la. Olhava-a profusamente, sob a luz difusa que vinha da rua e lhe invadia o quarto, à medida do quadro vivo que lhe invadia os sentidos.
Por breves instantes, sentiu-se em paz num misto de instinto protector e de conquista...um pouco como se fosse o guardião do tesouro que ali repousava e que ele próprio havia tomado para si, repetidas vezes.
À passagem de um automóvel, virou-se sobre si. Os olhos - agora abertos - rapidamente se acostumaram à luz difusa que, entrando pelo quarto, lhe fazia companhia e lhe projectava sombras. Vultos. Desejos dos finos e delicados traços que antes julgou observar. Sob tons amarelados da luz que invadia o quarto, não havia tesouro; nem sequer arco-íris que o anunciasse. A tela estava, afinal, em branco. Vazia de conteúdo...mas pronta a ser pintada .
"Mulher Adormecida", Pablo Picasso